Fábula


De mãos dadas ao sol. Fábula de coelho e pássaro escondidos nas ervas, espécies de visitação aos humanos. De mãos dadas ao sol, zambujeiro bravo sempre imóvel, que sugeres parar o tempo.

Oásis

Cedo na praia a imaginação viaja entre concavidades da areia como dunas de relevo definido pela luz da manhã. Incorporo-me reduzido à sua escala situado a atravessar ao sol abrasador o deserto por conquistar.
À frente águas frescas e árvores de tâmaras douradas de açúcares passam-me da memória à boca e enquanto sonho exércitos de escaravelhos transportam-me como um Gulliver adormecido de oásis em oásis.

Soltar


Soltar das páginas palavras ágeis.
Como tatuagens em tua pele.
Contam histórias dos gestos que viste terem minhas mãos.
Inclinadas sobre ti como cornucópias.

Desvi(ante)



Fotografia e texto de Pedro Correia

Paisagem viajante.
Por mim passam postes desfocados.
Bocados de coisas anónimas como ante o tempo lento.
Assim eterno indagante.

Foi a Flor

Fotografia e texto de Pedro Correia

Renascer agora alí à frente a flor, ainda ontem cabisbaixa, pisada pela espécie rinoceronte.
Apanhou num fluxo de clorofila quantos não contavam.
E surpreendidos a afogar-se, tentando salvar-se, quiseram arrepender-se.
A flor, que depois de se enraízar, física e vegetal, podia ficar imóvel, ancorar à sua volta.
Em vez disso, deixou-se polinizar.
Foi uma borboleta com a sua trompa.
A flor. Foi a flor.
A deixar que acontecesse um prado, à beira de um rio, transparente desenfreado.

Metamorfose

Fotografia e texto de Pedro Correia

Pequena flor das margens do rio que a mãe criadora no xisto quís marioneta de sombra.
Que mistério é o de tua metamorfose?, virtual de lepidoptera cheia de desconfiança.
Tua cautelosa aproximação em sonho no real camuflado entre os líquenes dos tempos.

Vaga

Fotografia e texto de Pedro Correia

Vaga de champanhe rebentada, acamada em denso manto de silício, reflectes brilho de outra explosão, mais ou menos perto mais ou menos longe.
Destino meu em teus limites, no pudor de me não submergires a prova marcada, desejei-me fóssil a ser encontrado a milhões de anos deste dia.

Lalique

Fotografia e texto de Pedro Correia

Meu bravo e agreste emaranhado em Sol de cigarras.
Lalique suspenso de líquenes e libélulas.
Gravetos de memórias, sempre eternos palimpsestos de minha tanta vida.
A vós sempre volto de tempo em tempo. Permanecei, contra os ventos.

Obra

Fotografia e texto de Pedro Correia

Visão imposta, quis ver em ti um Rothko.
Desenhei-te, assim, imobilizando sobre ti debruçado o tempo infinito.
De teu Sinistro fiz Sublime. Deves-me uma, coisa ruim, estrondosa.

Quero que Saibas

Fotografia e texto de Pedro Correia

Vejo-te, pai, ao ver-me. Vejo-nos e tenho-nos inscritos em mim.
A tua mão grande na minha pequena. A tua voz séria na minha gargalhada.
Quero ser alto como tu e correr como corres.
Um espelho que é nada tudo diz. Espírito matéria, espectro corpóreo.
Minha lente de monóculo tudo amplia, eternamente, à tua procura. Tudo sinto num raio de Sol quente à lupa.
Quero que saibas.

In Foresta

Fotografia e texto de Pedro Correia

Devo penetrar-te? Ofereces-te a abraçar-me e levar-me ao fundo.
Irei descer e atravessar-te. Parar, admirar-te.
Floresta toda. Ramificada. Densa.


Real Avatar

Fotografia e texto de Pedro Correia

No silêncio sombrio de tua físico-química morada reconhecí teu corpo estendido. Rosto magro pétreo, teu real avatar de ferro fundido a teu lado, vigilante.
Oras eternamente a paz. A nossa, de tua deixa vivemos a identidade. E pode até ser de guerra, a lealdade.

Pêndulo

Fotografia e texto de Pedro Correia

Percorrendo-te experimentei tuas linhas contorcidas. Inclinado, chamaste-me, labirinto de brilhos e reflexos de bronze e prata. Que janela é a tua que tudo prende e magnetiza?
Esperavas-me. Descobri teu contorno inundado, teu olhar como um pêndulo sobre Narciso.
De mãos dadas ecoámos pela música.


Pássaros

Fotografia e texto de Pedro Correia

Ameaçados pelo torpor do cinzento fumo, com vossos corpos alados ganhastes no ar o espaço, num corropio rodopio.
Ao calor pesado de fim de tarde, de céu azul já um pouco lento já um pouco escurecido, fizestes de estrelas e constelações como que num céu nocturno em negativo. Num caos cósmico sem órbitas, tal era a confusão.

David e Golias


























Fotografia e texto de Pedro Correia

Pelo arame e o pano verde vi o Sol e cinco gatos às cores, manchas e listas na erva esfregavam-se.
Descendo num tapete voador de cheiro a mofo amarei, raso à água, e foi ter o meu olhar fundo, ao longe: um David e dois Golias às ondas que, arrebatadores, não me fizeram esquecer outro mundo de teatro de sombras. Mas só lhes conhecí a silhueta.